Transversal

Patrimônio, nosso de cada dia

08 de ago. de 20263 min de leitura

O significado de patrimônio cultural está intimamente ligado às ideias de pertencimento e reconhecimento. Trata-se daquilo que marca o que é importante para uma comunidade, ou determinado grupo, aquilo que representa sua história, suas memórias e seus modos de viver. Betim, por sua vez, é uma cidade pioneira nesse campo: reconhece seus bens culturais e, ao mesmo tempo, se transforma em um grande laboratório para o estudo e a prática da preservação patrimonial. Com um acervo expressivo, 15 bens tombados, 7 registrados e 252 inventariados, Betim demonstra que o patrimônio é um organismo vivo, em constante construção. Diversos fatores influenciam as áreas de valoração do patrimônio cultural no município, e compreender essa dinâmica é essencial para fortalecer a identidade coletiva.

O primeiro fator a ser destacado é a política pública de patrimônio. Betim acompanhou, ao longo dos anos, as tendências nacionais e estaduais, incorporando metodologias de identificação, proteção, salvaguarda e difusão dos bens culturais. Em Minas Gerais, praticamente todos os municípios possuem políticas voltadas à preservação, e isso se deve, em grande parte, ao trabalho do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA). O programa ICMS Patrimônio Cultural, criado pelo Instituto, foi fundamental para que Betim e tantas outras cidades pudessem investir de forma contínua na preservação de seus bens. Mais do que proteger, essa política educa e valoriza: difunde o conhecimento e cria uma cultura de pertencimento.

O papel das equipes e dos órgãos responsáveis por esse processo, desde as primeiras gestões até as atuais, merece destaque. Foram, e continuam sendo, agentes de transformação. Cada bem reconhecido carrega consigo uma parte da memória da cidade. Esse processo, no entanto, não está isento de desafios. Há bens amplamente aceitos pela população, verdadeiros símbolos da identidade local, e há outros cujo reconhecimento ainda é questionado, seja pela falta de participação comunitária, seja por divergências na interpretação de seu valor histórico ou simbólico. Esse tensionamento, longe de ser negativo, é parte natural do amadurecimento de uma política patrimonial viva e democrática. Outro ponto essencial é a dimensão identitária do patrimônio. É comum que Betim seja lembrada nacionalmente como “a cidade da Fiat”, mas há uma Betim muito mais profunda e plural, que precisa ser vista e narrada por seu próprio povo. Que Betim é essa?

A resposta está nas suas diferentes regionais administrativas, hoje em número de dez, cada uma com suas expressões culturais, tradições e histórias particulares. Vianópolis, por exemplo, conserva um ambiente mais interiorano, com práticas e memórias que remetem às origens rurais da cidade. Já Citrolândia traz uma história marcada pela instalação da Colônia Santa Isabel, criada para abrigar pessoas atingidas pelas políticas higienistas do Estado brasileiro, um episódio que, embora doloroso, faz parte da formação social e cultural betinense. A Regional Centro, por sua vez, marca o ponto de origem do povoamento do município. É ali que se concentra a “história contada”, mas é preciso transformá-la também em história construída, viva, compartilhada e em constante ressignificação. O patrimônio cultural, nesse sentido, é um elo que complementa o que nos faz cidadãos. Reconhecer essas narrativas é reconhecer Betim em sua totalidade, com suas contradições, resistências e diversidades.

Nossa cidade, que foi no passado um importante ponto de parada e abastecimento, continua sendo caminho. Mesmo tendo recebido uma grande população vinda de fora, impulsionada pelo boom industrial entre as décadas de 1970 e 1980, Betim tem potencial para ressignificar-se e se apaixonar por sua própria história. O desafio, e a beleza, está em educar as novas gerações para que defendam uma memória que também é delas. Betim tem dado passos firmes nessa direção, mas o trabalho é contínuo. Que cada morador possa se ver refletido no patrimônio de sua cidade e, mais do que isso, se sentir parte dele. Afinal, o patrimônio é, de fato, nosso de cada dia.