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Museu Vivo: primeiros conceitos

19 de ago. de 20263 min de leituraBetim

Em março deste ano, acompanhamos um importante passo para a preservação e valorização da memória da Colônia Santa Isabel. No domingo, 29 de março, foi assinado um termo que garante fomento para a implantação da primeira fase do Museu Vivo da Colônia Santa Isabel. Trata-se de uma proposta que já vem sendo discutida entre a comunidade e o município e que suscita questões importantes: como será esse projeto? De que forma a comunidade se insere nele? Para responder a essas perguntas, é preciso compreender, ainda que de forma simples, o papel da museologia.

Os museus sempre exerceram função fundamental na preservação da memória de cidades, grupos e territórios. Se antes eram espaços mais associados às elites, hoje se consolidam como lugares de afirmação de identidades e de leitura da história a partir de diferentes vozes. São, portanto, espaços de memória essenciais para compreender o presente.

Grande parte das pessoas já visitou um museu estruturado de forma tradicional, com início, meio e fim. No entanto, é importante reconhecer que todo museu é também um projeto de escolhas: ele define o que deve ser evidenciado, quais narrativas serão destacadas e de que forma a história será apresentada. A Colônia Santa Isabel já vivenciou essa experiência com a criação de um Memorial, em 2005, posteriormente transformado e realocado, em 2017, no Centro de Memória Luiz Veganin – Museu da Hanseníase. Com melhorias estruturais e, a partir de 2023, com o aprofundamento do entendimento museológico e o início do processo de musealização de suas peças, objetos e documentos, avançou-se na catalogação, na reorganização do acervo e na criação de alas temáticas. Esse conjunto de ações fortaleceu o espaço, que passou a ser reconhecido pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), consolidando-se como uma importante referência.

Desde sua criação e período de funcionamento (1931–1986), Santa Isabel produziu uma história marcada por dores, resistências e reinvenções. Essa memória segue viva e em constante ressignificação, conduzida pelos próprios moradores, herdeiros desse legado.

É nesse contexto que surge a proposta do Museu Vivo, apresentada pelo prefeito Heron Guimarães, em articulação com o secretário de Cultura, Thiago Flores, também morador da Colônia. A iniciativa propõe um novo olhar sobre o território: compreender as ruas, os espaços e o cotidiano como lugares de exposição, transformando a memória em uma experiência viva e coletiva. Trata-se, ainda, de um importante processo de ressignificação de um passado marcado por violações de direitos humanos promovidas pelo Estado brasileiro.

O Museu Vivo pode ser entendido como um avanço na forma de pensar a museologia, ao romper com o modelo exclusivamente estático e levar a exposição para o cotidiano. A vida comum, carregada de histórias, passa a ser reconhecida como patrimônio.

O conceito que se apresenta é o da “exposição da vida”, onde a história é vivida, narrada e reinterpretada continuamente. Um modelo que não apaga o passado, mas o evidencia, inclusive em suas dores, tendo na arte e na memória instrumentos de reflexão e de não esquecimento.

Nesse processo, o Centro de Memória Luiz Veganin não perde sua importância, ao contrário, torna-se base estruturante, um “coração pulsante” que alimenta e articula as ações no território. A proposta, que prevê a implantação de cerca de 20 pontos ainda neste mandato, aponta para uma rede de lugares de memória espalhados pelo conjunto urbano, valorizando diferentes dimensões da história local: o esporte, a religiosidade, as artes e a vida comunitária.

O Museu Vivo nasce, portanto, sem uma data de término definida. E talvez essa seja sua maior força: não se encerra em si mesmo, pois é contínuo, dinâmico e coletivo. Acima de tudo, tem na comunidade sua principal curadora.

História é Vida | Betim · parte 1 de 3